quarta-feira, 20 de maio de 2015

Igreja e Exército Segundo Freud

Na Igreja — podemos, com vantagem, tomar a Igreja católica como modelo — prevalece, tal como no Exército, por mais diferentes que sejam de resto, a mesma simulação (ilusão) de que há um chefe supremo — na Igreja católica, Cristo, num Exército, o general — que ama com o mesmo amor todos os indivíduos da massa. Tudo depende dessa ilusão; se ela fosse abandonada, imediatamente se dissolveriam tanto a Igreja como o Exército, na medida em que a coerção externa o permitisse. Esse amor a todos é formulado expressamente por Cristo: “O que fizestes a um desses meus pequenos irmãos, a mim o fizestes” [Mateus, 25, 40]. Ele se relaciona com os indivíduos da massa crente como um bondoso irmão mais velho, é um substituto paterno para eles. Todas as exigências feitas aos indivíduos derivam desse amor de Cristo. Há um traço democrático na Igreja, justamente porque diante de Cristo são todos iguais, todos partilham igualmente o seu amor. Não é sem profunda razão que se evoca a semelhança entre a comunidade cristã e uma família, e que os crentes se denominam irmãos em Cristo, isto é, irmãos pelo amor que Cristo lhes tem. Não há dúvida de que a ligação de cada indivíduo a Cristo é também a causa da ligação deles entre si. Algo parecido vale para o Exército; o general é o pai, que ama igualmente todos os seus soldados, e por isso eles são camaradas entre si. O Exército se diferencia estruturalmente da Igreja pelo fato de consistir num escalonamento desse tipo. Cada capitão é como que o general e o pai de sua companhia, cada suboficial, de sua unidade. Uma hierarquia semelhante formou-se também na Igreja, mas nela não tem o mesmo papel econômico, porque é de supor que Cristo tenha mais saber e mais cuidado em relação aos indivíduos do que pode ter um general humano.

O que vem à tona, nessa imaginária desintegração de uma massa religiosa, não é medo, para o qual não há ensejo, mas impulsos implacáveis e hostis contra as outras pessoas, que devido ao amor comum a Cristo não se haviam manifestado até então. Mas mesmo durante o reinado de Cristo se acham fora dessa ligação os indivíduos que não pertencem à comunidade de fé, que não o amam e que ele não ama; por isso uma religião, mesmo que se denomine a religião do amor, tem de ser dura e sem amor para com aqueles que não pertencem a ela. No fundo, toda religião é uma religião de amor para aqueles que a abraçam, e tende à crueldade e à intolerância para com os não seguidores. Por mais difícil que seja pessoalmente, não se deve recriminar os fiéis com muita severidade por isso; para os infiéis e indiferentes as coisas são, psicologicamente, bem mais fáceis neste ponto. Se agora essa intolerância não se mostra tão violenta e cruel como no passado, não será lícito concluir que houve uma suavização dos costumes humanos. A causa deve ser buscada, isto sim, no inegável enfraquecimento dos sentimentos religiosos e das ligações libidinais que deles dependem. Se outra ligação de massa toma o lugar da religiosa, como a socialista parece estar fazendo, ocorre a mesma intolerância com os de fora que havia na época das lutas religiosas, e se as diferenças de concepções científicas viessem a ter, algum dia, importância igual para as massas, o mesmo resultado se repetiria também com essa motivação.


Sigmund Freud – A Psicologia das Massas e Análise do Eu: Duas massas artificiais: Igreja e Exército.

domingo, 3 de maio de 2015

Totem E Tabu - Capa Original de 1913.


Lou Andreas Salomé

A russa Lou Andreas Salomé chocou a sociedade europeia do início do século XX por ser, ao mesmo tempo, bela, sexy, inteligente, culta e livre. Numa época marcada por grandes homens, ela se relacionou, de um modo ou de outro, com muitos deles – e deles recebeu admiração, paixão e respeito intelectual. Manteve, por décadas, um casamento aberto e inúmeros relacionamentos, incluindo Nietzsche (que literalmente enlouqueceu por ela), Freud, Rilke e uma longa lista.

Lou Andreas Salomé (ou Luisa Gustavovna Salomé) nasceu em São Petersburgo (1861), e viveu, estudou, escreveu e exerceu a psicanálise – foi uma das primeiras e principais discípulas e correspondentes de Freud – em Paris, Roma, Berlim, Zurique e outras cidades europeias.

Quinze anos mais velha do que Rilke, foi a “grande mulher” atrás do grande poeta alemão. Ensinou-lhe russo e o introduziu na obra de Tolstói e Púchkin, além de apresentá-lo a parte importante da inteligencia europeia.

Em sua obra, destacam-se estudos sobre Nietzsche, Rilke e sobre sua própria vida, além de ensaios pioneiros sobre a sexualidade feminina.

Lou Andreas Salomé faleceu em 1937, pouco antes de a Gestapo emitir uma ordem de prisão contra ela.