sábado, 1 de agosto de 2009

Senhoras do Santíssimo Feminino



Elas chegaram quando a vida anunciava uma tempestade a caminho, quando o céu estava absurdamente azul e a minha vida, coberta pela escuridão. Chegaram sem anunciações, sem visões ou pompas. Simplesmente bateram palmas no portão e foram entrando sem pedir licença. Chegaram como as moças sempre chegam: ruidosas, alegres, cheirosas.

A casa, que naquela época tinha sido tomada pelo cheiro azedo do desespero, de repente perfumou-se de flor. A principio, talvez pelo perfume e a beleza das moças, as confundi com representantes de alguma linha de cosméticos.

Já me preparava para recusar polidamente as ofertas, quando me surpreenderam ao estender um velho baú, é claro que não se tratava de perfumes, batons, bases e pós-de-arroz! Pensei, então, com meus botões na possibilidade daquelas moças serem arautos de mais um segmento evangélico e imaginei que o velho baú estivesse repleto de revistas e panfletos. Mais uma vez a suposição revelou-se irmã do erro!

Quando abri o baú, deparei-me com o tempo, esse estranho senhor de todas as idades. Ele me olhou nos olhos e me cumprimentou com os meus primeiros balbucios. Senti saudades do colo morno de minha mãe e do aroma de alfazema dos primeiros anos da minha infância.

Foi exatamente na hora em que meus joelhos ardiam pelo tombo dos primeiros passos que a Senhora das Graças cobriu-me com seu manto azul, perguntando-me pelo caminho da cozinha. Nesse instante me dei conta de que as moças eram na verdade as santas de quem Virginia, minha avó portuguesa, tanto falava. Mas Virginia havia dito que Elas surgiam em grutas, em cima de nuvens, nas águas dos rios, na espuma do mar, nas pradarias floridas e em outros lugares sagrados! Como, então acreditar que aquele bando de moças ruidosas era mais uma aparição? Bem verdade que os tempos estavam mudados e as santas andavam aparecendo nos vidros das janelas. Mesmo assim, bater palmas no portão, entrar sem pedir licença e ainda me perguntar pelo caminho da cozinha era, sem dúvida, prova de falta absoluta de milagre.

Enquanto Elas espiavam cuidadosamente os objetos da cozinha, destampando panelas e furungando a geladeira, lembrei-me de Virginia narrando o negror do céu a se abrir num sol amarelo, no dia em que Fátima revelou-se às três crianças. Corri à janela, esperança de que o céu tivesse mergulhado na noite, mas o dia continuava lá, azul e iluminado. Olhei para o sol e lê continuava o mesmo, dourado e cheio de si. Procurei o rastro de algum cometa, uns poucos pingos de chuva, um arco-iris perdido, mas nenhuma pista foi encontrada. O milagre não tinha a cara nem a meteorologia dos milagres!

Mas milagre que é milagre não se explica, por isso o acatei e dei fim à lista interminável de ponderações que já se insinuava em minha mente. Afinal, entre o milagre e a complicação da minha vida naquela ocasião, o milagre era bem mais simples.

Enrolada na teia de nós que cobrira o meu cotidiano, aproveitei-me da santíssima presença e comecei a elaborar uma lista de pedidos enquanto Elas tomavam o café recén-coado.

Inevitavelmente, a lista iniciou-se com o dinheiro que andava sumido e cismara em evitar meus bolsos e minha carteira. A Senhora Desatadora dos Nós certamente desataria alguns contratos pendentes e Santa Bibiana, que sofrera na carne a privação dos seus bens e o frio da miséria, sem duvida me ajudaria a recuperar a estabilidade financeira. Depois do dinheiro, centrei-me na segunda necessidade: saúde! Vó Vitalina costumava dizer que a saúde sempre foge com o dinheiro. Ela estava certa. Poucos dias após o meio da noite, a casa foi invadida por germes invisíveis. Eles trouxeram nos bolsos nos bolsos um nefasto tesouro cujo espectro ia do resfriado mais bobo até a epilepsia de Mel, a cadela da casa.

Antes que você se pergunte como um germe poderia transmitir a epilepsia, digo-lhe que para mim também foi um mistério. Da noite para o dia a doença se abateu sobre Mel, dando mostras de que o germe da maldade era uma evidencia pra lá de cientifica.

A evidencia se fez mais evidente ainda quando o veterinário, depois de ter ministrado todos os tipos de medicamento, constatou que nada debelava as crises. Tecnicamente, Mel não era epilética, mas como nenhum exame apontara uma outra doença, por falta de terminologia médica preferimos chamar de epilepsia as crises que a acometiam a cada lua cheia.

Se era doença nova ou pura catalisação da maldade que enviavam para nossa casa (na época, estávamos vivendo as agruras de um inventário), agora isso era o de menos. O importante é que Elas estavam ali, na minha cozinha, prontas para curar todos os males.

Depois de acrescentar a saúde à minha lista imaginária, aproveitei a presença de Santa Cecília (a padroeira da musicalidade das artes) para pedir um pouco mais de inspiração. Talvez percebendo o que se passava na minha cabeça, Cecília esmerou-se em seus dons. A cozinha se encheu de música e cores. A louça começou a brilhar como o mais puro cristal e até a água da torneira jorrou sinfônica.

Quando a lista já ultrapassava uns cinqüenta pedidos, senti uma emoção estranha tomar conta de mim. Já não havia mais dor, falta de dinheiro, pequenas e grandes doenças, dívidas, carência de inspiração, mágoas e desesperança. Eu estava absurdamente feliz, bojuda de paz e equilíbrio!

Pensei então na lista que havia feito e, vendo o ridículo e a pequenez do meu gesto, comecei a rir. Elas riram comigo. Em poucas gargalhadas lá estava a lista rasgada em mil pedaços no chão! Um simples monte de lixo no centro do piso da cozinha, um acumulo de papel e tinta de caneta, um resto de lista burocrática como todas as listas, um agrupamento de intens necessários parecidos com aqueles que a gente escreve quando vai ao supermercado...

Logo depois de Santa Teresa ter varrido a cozinha (não houve jeito de fazê-la largar a vassoura!), nos juntamos para preparar um lanche e conversar em torno da mesa como boas amigas...



Livro: Senhoras do Santíssimo Feminino
Autora: Márcia Frazão
Editora: Rosa dos Tempos
ISBN: 0788501072009
Páginas: 267